Gritando no vazio e meu lugar no oceano
- César Froes

- 4 de set. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 21 de jan. de 2024
Essa noite eu estava tranquilamente no twitter fazendo o que faço de melhor.
Curtir desenhos de outros artistas, interagindo com umas personalidades interessantes como um pateta e compartilhando videos engraçados.
E isso me fez pensar sobre como eu deveria usar mais outras redes sociais, afinal faz um tempo que não engajo no Facebook da forma que deveria, enquanto que no Spotify eu recebi o tão cobiçado título de "Artista Verificado".
No Facebook, além do meu perfil pessoal, eu tenho uma página dedicada a minha arte e essa é vinculada a minha loja na Colab55.
Isso já é motivação suficiente pra que eu seja um "influencer", fazer disso uma forma de renda, trazer um público pra página, deixa-los entretidos e assim vender algumas camisetas.
As plataformas estão lotadas de dicas para se tornar um "influencer", como ganhar centenas de milhares de seguidores.
Propagandas de "coachs" virtuais aparecem o tempo todo como propaganda nos vídeos do Youtube e entre postagens do Instagram.
Horas e mais horas de video-aulas gratis e pagas sobre como se tornar famoso tomam conta de qualquer rede social, se você não for cuidadoso.
Eu confesso que acho a ideia é bem atraente. Me tornar um "famoso de internet" e conseguir monetizar a fama não é o sonho de muitos, mas parece também uma forma divertida de ganhar a vida.
Mas sinceramente, a cada passo que dou pra descobrir o que eu quero pra mim e pro meu futuro me faz perceber que é um objetivo não só impossível, mas também sem fundamento.
Com constantes mudanças no algorítimo e perfis afogados em conteúdo voltados somente para gerar interação, pessoas de verdade, opiniões interessantes e vozes se perdem completamente.
Eu li algo a respeito sobre gritar no vazio, que falava exatamente sobre a nossa presença vazia dentre esse mundo de informação. É só abrir o perfil do Felipe Neto no Twitter pra ter uma noção do que realmente é gritar no vazio. A cada postagem, milhares de resposta buscando interação seja de forma positiva ou negativa, pessoas pedindo ajuda e outras respondendo casualmente, como que de forma pessoal.
Eu vejo as táticas de "influencer" no Youtuber, mas é mais óbvio nas postagens da maioria das pessoas que interagem com ele, sempre com assuntos polêmicos e opiniões precisamente esculpidas para gerar mais resposta o mais rápido possível.
Enquanto isso no Instagram, "influencers" como Juliana Bonde tratam seus seguidores como namorados, conversando casualmente e com carinho sempre no singular, indo na contra-mão do famoso que trata seguidores com bastante empolgação, como se estivesse falando pra um grupo de amigos ou família, sempre no plural e bem alto.
Como artista online, eu tive vontade de me tornar um "influencer". Alcançar pessoas com meus desenhos e interagir com todas as pessoas que tem sentimento despertado pelas minhas postagens.
Mas eu também não quero me tornar um escravo dos números.
Não quero desenhar só pra ter algo pra postar na rede social.
Não tenho menor intenção de aparecer pra câmera pra falar sobre algo interessante que aconteceu na minha vida.
Eu gosto da minha vida discreta e quero ser reconhecido como alguém interessante.
Algum psicólogo pode avaliar com precisão o que se passa na minha cabeça e me ajudar a entender e separar o que é saudável do que não é nesse mix de pensamentos, estou disposto a ajudar se alguém quiser estudar minha mente que oscila entre medianamente medíocre e uma poderosa e absoluta fonte de luz.
Talvez isso seja um reflexo da vida que eu cresci vendo como "vida de artista", já que nos anos 90, músicos e atores famosos eram famosos apenas pelas suas artes e performances, e não pela opinião em cada tópico 24h por dia. Muitos deles pra mim ainda são completamente desconhecidos, uma barreira imensa pro movimento moderno do cancelamento ou de separar arte do artista.
Eu não consigo me conectar tão bem com artistas bem engajados online. Como uma verdadeira criança dos anos 90 eu sempre tive a impressão de que participar demais da vida de um artista me faria parecer um fanático ou algo do tipo.
O que não significa que eu não tenha tentado, com o passar dos tempos, esse pensamento ficou obsoleto e agora podemos descobrir pessoas que partilham da sua vida por vontade própria.
Um desses artistas é Post Malone, um músico que me cativou primeiro na personalidade. Horas de entrevistas em podcasts mostram uma pessoa divertida e de poucos compromissos, sempre falando de fantasmas, alienígenas e memes eu me peguei pensando várias vezes que sem dúvidas, ele seria meu amigo na escola.
Coincidentemente, um dos seus amigos, o músico Rich Brian é engajado a um outro nível. Antes de qualquer lançamento musical, já fazia comédia no Vine (equivalente ao TikTok) e é responsável por vários virais famosos internacionalmente.
E recentemente seu vídeo comemorando o aniversário e lançamento do seu novo single sozinho (graças a pandemia) já passou dos 140 mil curtidas, sem nenhum filtro, tratamento ou qualquer produção.
É só ele em sua casa escutando música.
A possibilidade de ambos artistas existirem no cenário atual de formas diferentes me trás bastante alívio, de verdade.
Não quero ajustar minha vida baseado no novo algorítimo do Instagram. Não quero saber de melhor horário pra postar stories ou quantas opiniões controversas eu preciso me expressar no Twitter por dia pra ter mais seguidores.
Quero que pessoas escutem e reconheçam minha música e meus desenhos. Que se identifiquem e venham interagir comigo por isso.
Ainda sim, minha página do Facebook parece abandonada... talvez amanhã eu poste algo por lá.


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