Zack Snyder e o início do fim da mordaça da sétima arte
- César Froes

- 25 de mar. de 2021
- 4 min de leitura
Finalmente, depois de anos de pressão dos fãs, atores, da mídia e até do próprio diretor, a "Liga da Justiça de Zack Snyder" finalmente saiu!
E sim, no nome original em inglês, o nome do diretor vai antes do título do filme. Acho perfeitamente aceitável que o nome do diretor receba maior reconhecimento nessa empreitada que teve a maior reviravolta da história do cinema (pelo menos nos últimos 20 anos).
Depois de ter seu filme parcialmente refilmado e editado porcamente por Joss Whedon logo depois de uma tragédia familiar, o público teve a chance de ver como a Liga da Justiça deveria ter sido em toda sua glória.
São 241 minutos de filme, pouco mais de 4 horas divididos em 6 capítulos com uma história interessante e densa, mas na medida suficiente pra não ser sufocante e nem tediosa. São boas 4h da mitologia moderna mais amada da cultura pop. Nada de fórmula "Marvel" por aqui, a visão de Snyder é a mais exagerada o possível, com o mindinho direito na realidade e o pé esquerdo afundado na literatura grega mais dramática recheada de heróis e deuses. Literalmente.
E então? O filme é bom pelo menos?
Devem ter inúmeras resenhas pela internet falando sobre o quão surpreso todos estiveram com a qualidade história, como os personagens são interessantes e bem motivados, e tudo se encaixa muito bem culminando num resultado satisfatório. É um filme divertido sobre deuses e heróis (com alguns defeitos) e vale a pena investir suas horas nele.
Concordo plenamente com tudo citado acima, acho inclusive que essa visão dos heróis encaixa melhor e justifica todos os "defeitos" apontados pelo público nos dois filmes anteriores: "Homem de aço" e "Batman V Superman". Vale lembrar que Snyder teve uma ajudinha de Christopher Nolan na produção. Liga da Justiça de Zack Snyder completa tão perfeitamente a trilogia que é possível assistir sem intervalos as 8h de filmes como um só, mas só no caso tiver pipoca o suficiente.
Numa postagem anterior eu tinha falado sobre como Sonic começou uma revolução na indústria do cinema. Depois do fracasso do lançamento do trailer em 2018, Tyson Hesse foi contratado pela produção do filme pra corrigir o design do ouriço azul e em meses uma equipe de efeitos visuais tiveram a árdua tarefa de corrigir o que parecia ter sido um desentendimento entre empresários e figurões em Hollywood que querem saber mais de dinheiro do que de arte.
O resultado foi excelente, "Sonic o filme" foi um sucesso e isso tudo ocorreu junto a produção de "Joker", outro filme aclamado pela liberdade com a história, personagens e até classificação etária. Esse inclusive levou algumas estatuetas do Oscar pra casa e isso abriu os olhos da Warner.
E de fato, precisavam urgente de abrir os olhos. Tanto conteúdo foi cortado da versão anterior do Liga da Justiça, que pouco fazia sentido na história e aos poucos o público começou a entender os motivos nas mudanças que a Warner fez nos filmes. Joss Whedon, o diretor contratado pela Warner pra terminar o filme de Snyder, responsável pela refilmagem de várias cenas e completa exclusão de outras completamente relevantes a história está recebendo várias acusações de racismo e abuso entre atores e outros funcionários durante a produção desse filme. De fato, o personagem principal e pivô da história "Ciborgue" (de Ray Fischer) teve toda sua campanha completamente removida da versão de cinema, incluindo uma das cenas mais importantes pra motivação do personagem e avanço da história em si. A atriz Amanda Maud que estava nessas cenas veio a público perguntar se ela ainda estava no corte final do Zack Snyder. Vale lembrar que Amanda é de origem asiática e Ray negro de Nova Jersey, ambos excelentes atores, mas alvos fáceis do racismo de Joss Whedon e da diretoria da Warner.
Uma mudança significativa, porém menos controversa ficou por conta da trilha sonora, lembrando que inicialmente, Snyder e Christopher Nolan chamaram seu forte aliado pra fazer a música: O compositor Hans Zimmer que por sua vez, chamou o DJ e produtor Junkie XL para juntos criarem a trilha sonora da saga. E sim, juntos fizeram aquela música tema incrível da Mulher Maravilha e talvez a melhor música tema de Super Homem já feito até hoje.
Joss Whedon não achou o trabalho de Hans Zimmer "reconhecível" o suficiente e chamou Danny Elfman pra refazer algumas músicas. Não que elas tenham ficado ruins, de forma alguma! As músicas novas tem um toque de nostalgia, já que Danny é responsável pela melhor música dos desenhos animados de Batman de todos os tempos!
Porém, se é bom pra animação de tv, não significa que seja boa pro cinema. Menos ainda pra uma arte autoral como esse filme. Nesse ponto, as opiniões estão divididas, alguns dizem que o fator nostalgia e o clima de mistério da trilha de Danny se encaixam bem nas cenas, outros defendem que a trilha de Hans Zimmer e Junkie XL se encaixa bem... no filme todo... No final das contas, várias personalidades na internet estão discutindo se realmente Liga da Justiça de Zack Snyder é de fato uma revolução no cinema. Por ter sido refeito com 100% da visão artística do diretor, por ter sido lançado em formato IMAX pra serviços de streaming, por mostrar que o público tem efeito grande nas decisões de Hollywood e por mostrar um futuro de infinitas possibilidades pra sétima arte.
E eu concordo que sim, é o ápice da revolução do streaming, que a arte é maior que o lucro que ela gera, que a percepção de um artista é maior do que os royalties do personagem e que mudar a história por racismo não vai colar mais (assim eu espero). Mas o início dessa revolução, foi lá em 2018. Com um ouriço sentado sozinho no fundo do vale da estranheza.



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