A inexplicável mordaça invisível da sétima arte
- César Froes

- 12 de dez. de 2019
- 4 min de leitura
Atualizado: 25 de mar. de 2021
Quando criança, eu escutei várias bordões que eu levo como lição pra vida.
E é com absoluta certeza que você já escutou pelo menos um como: 'Pra bom entendedor, meia palavra basta, cão que ladra não morde, cada macaco no seu galho, a pressa é inimiga da perfeição' e a lista segue. Esse ultimo em particular me marcou bastante, especialmente por que é seu resultado é visível, tão palpável que é possível tropeçar nele se não prestar atenção.
Quando se trata de desenhar, não é diferente. O ilustrador precisa de tempo pra trabalhar na sua obra e dividir na medida certa cada aspecto pra expressar a ideia e emoção através de linhas e cores. Reduzir o tempo necessário do ilustrador é garantia de prejudicar a qualidade da arte final.
Foi um exemplo fácil, mas pode se aplicar a qualquer arte ou trabalho exercido. Não ensaiar aquela música com a banda vai resultar em um show medíocre, não lixar o suficiente a madeira vai resultar em um móvel irregular e um viaduto projetado as pressas pode causar uma tragédia.
E com a indústria do cinema, não é diferente.
A mobilização recente da internet com o trailer do Sonic foi mais um exemplo disso. Os executivos da Paramount decidiram acelerar o lançamento do filme ignorando o design do personagem principal (!?) e como resultado, o Sonic adorado por gerações entrou no vale da estranheza de cabeça!
Felizmente, a repercussão foi o suficiente para que os tais executivos dessem alguns passos para trás e deixaram o Sonic na mão de quem entende de Sonic.
O ilustrador, quadrinista e diretor de arte Tyson Hesse é exatamente o especialista responsável por transformar o design mais odiado de 2018 em uma adaptação digna do maior ícone dos anos 90.
O trabalho de redesign exigiu muito mais do que tempo pra Paramount.
Foram declarados mais de 35 milhões de dólares investidos na contratação de artistas de efeitos visuais para refazer o personagem digital, apesar de algumas fontes calcularem algo em torno de 5 milhões.
De qualquer forma, o lançamento do filme está programado para 14 de Fevereiro de 2020 e é esperado uma boa recepção nas salas de cinema. Dos velhos fãs que estão satisfeitos com o redesign, dos curiosos que acompanharam a história por redes sociais e da criançada que só quer um filme divertido pra assistir nas férias escolares.
Uma lição que a internet teve que ensinar a executivos da produtora de filmes centenária que a perfeição, também da lucro.
Porém existe uma história que ainda está pra desenrolar.
Um assunto que sempre volta para os holofotes do twitter é o controverso Snyder Cut.
Zack Snyder foi diretor de vários filmes da DC Comics e no seu curriculo conta com Watchmen, 300 e outros filmes de visual carregados de efeitos especiais exagerados que borram completamente a linha que separa o realista do cartunesco.
Essas características marcantes tem seu reconhecimento, visto que já lhe rendeu indicação no Festival de Cannes em 2004 e o premio de Melhor diretor em 2007 com 300.
Por esses e outros motivos a Warner Bros deu ao diretor a responsabilidade de levar ao telão os filmes Homem de aço (2013), Batman v Superman (2016) e Liga da Justiça (2017). Porém curiosamente a recepção desses filmes foi muito abaixo do esperado.

Eu particularmente gostei muito do visual de cair o queixo dos dois primeiros filmes, somados a trilha sonora devastadora de Hans Zimmer e Junkie XL e inspirado nas (mais que) maravilhosas HQ's "Super-Homem Paz Na Terra" e "Batman guerra ao crime" é a receita certa, a fórmula mágica que tinha tudo pra ficar perfeito mas não ficou.
Algumas cenas mal editadas, diálogos sem sentido e cenas confusas foram os alvos da crítica. E então Liga da Justiça (2017) que deveria ter sido um sucesso absoluto, teve uma bilheteria inferior aos dois filmes anteriores, apenas 6,5 estrelas no IMDB e uma avaliação de apenas 40% no Rotten Tomatoes.
Depois do lançamento do filme, fãs levantaram suspeitas de que algo não estava certo. A edição do filme tinha uma pegada bem mais 'amadora' e novamente diálogos sem sentido e mais cenas vazias.
A suspeita foi confirmada por atores e pelo próprio diretor que executivos da Warner apressaram com a edição dos filmes para competir com a Marvel.
A hashtag #ReleaseTheSnyderCut é um protesto para a Warner liberar a edição feita pelo próprio Zack Snider, do filme como deveria ter sido na visão do artista.
Algumas pessoas podem até argumentar que cenas extras não mudar a avaliação de filme tão criticado. Afinal gosto é subjetivo e avaliações como Rotten Tomatoes levam em conta a recepção do público não especializado.
Porém não deixo de pensar no absurdo que é um grupo de executivos podando cenas, efeitos visuais e diálogos importantes do corte final para "competir" financeiramente num mercado que em teoria, tem espaço de sobra para a DC e Marvel fazerem a festa.
Nesse ritmo de protesto, a hashtag foi até pelo elenco do filme deixando claro a insatisfação com as decisões da Warner.
Não é que a produtora de filmes norte-americana não tenha aprendido a lição. O filme "Coringa" (2019) dirigido por Todd Philips teve total liberdade no refinamento e até na classificação etária.
E o resultado é claro e óbvio, até o momento ele foi indicado a Melhor filme de drama, Melhor Trilha Sonora orginal, Melhor ator de drama e Melhor diretor no 77º Globo de Ouro.
Se a produtora vai liberar o Snyder Cut, só o tempo vai dizer. Mas eu falo com certeza que eu já sabia desde criança o que a Warner aprendeu em 2017 e a Paramount em 2018.
Que a pressa, mano... é inimiga da perfeição.



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