Animes e o marketing da sexualidade
- César Froes

- 1 de fev. de 2019
- 4 min de leitura
Atualizado: 1 de set. de 2019
De tempos em tempos, alguém volta a me recomendar um anime pra assistir
E de fato, eu não recuso.
Ajeito meu tempo pra me dedicar a maratonas e perco muito tempo procurando por mais conteúdo como filmes (OVA's) e jogos para completar a experiência dessas histórias fantásticas.
Os animes me rodeiam com uma cortina de fumaça chamada de nostalgia e fico facilmente perdido, isso por que eles representam uma boa fração da minha infância e adolescência, moldaram muito do meu caráter e naturalmente despertaram minhas paixões pela ilustração, animação e música.
Por volta dos meus 14 anos, minha vida se resumia em estudar no período da manhã, fazer alguma atividade pela tarde (seja curso ou natação) e corria pra casa ansioso pra assistir mais um episódio de Evangelion no já falecido canal pago LOCOMOTION.
Cantava todos os dias as músicas da banda L'arc~en~ciel e The Pillows, participava de eventos de cosplay e consumia descontroladamente miniaturas, jogos de video-game e mangás.
E a esse ponto eu já estava mergulhado profundamente na cultura dos Animes e Mangas.
Decorei diversos diálogos famosos e pesquisava por animes que saiam no Japão através de revistas e sites na internet. E acima disso, guardava imenso carinho pelas histórias, pelos personagens carismáticos e claro seus autores.
Eu era um deles, orgulhoso de meu conhecimento, carregava o título de Otaku mesmo sabendo (e incansavelmente explicando) que o significado da palavra tinha sofrido claras mudanças em sua longa viagem da ilha do sol nascente para as praias tropicais da seleção canarinho.
Mas mesmo assim, algo me incomodava profundamente nessa cultura.
O controverso Fan-service.
Não consigo me expressar sobre quantas vezes eu parei de assistir algum anime por que achei que toda aquela carga sexual era completamente desnecessária. E depois de um tempo me convenceram de que era natural dos japoneses ou que fazia parte de sua cultura exótica e incompreendida, inundando a mídia animada com jovens sensuais usando pouca ou nenhuma roupa em momentos inusitados sem aparente necessidade ou explicação.
O nome que deram pra explicar esse fenômeno foi "Fan-service" onde um anime ou manga, para ser facilmente vendido para o público masculino, exagera na sexualidade sem nenhum contexto normalmente no início da série ou em algum episódio em específico.
Muitas produções famosas tiveram cenas ou até episódios inteiros censurados quando importados pro ocidente (sem afetar em nada a história) e parte de mim sente esses "serviços" não deveriam nem ter sido criados, afinal sem elas, os animes podem ser exibidos em qualquer horário e para todas as idades atingindo um público muito maior.
Com passar do tempo, sentia que essas cenas existiam somente para algum fã discriminado poder repetir:
_"Anime não é coisa de criança!"
Esse argumento nunca justificou pra mim o abuso de sexualidade não contextualizada em narrativas que sequer tratam do assunto. Nada me convence a gastar saliva discutindo com aquele cara que insiste em repetir a sentença, mesmo quando o anime em questão é Pokémon.
Mas é claro que existem exceções, e sou muito grato por isso.
O já citado Evangelion (em breve no Netflix) usa e abusa da sexualidade pra colocar a audiência no lugar de Shinji Ikari, um jovem de 14 anos que, assim como todos nós nessa idade, está transbordando hormônios e tentando lidar com pressão e responsabilidade digna de Atlas.
Todas as cenas que envolvem um exagero da sensualidade dos personagens, são feitos com incrível precisão para transmitir essa sensação terrível que é descobrir que tudo no mundo se resolve em sexo e violência.
Fora a qualidade excelente de animação, e uma estória carregada de elementos de ficção científica e referencias diretas a filosofia moderna de Sigmund Freud e Arthur Schopenhauer. Assim o anime usa e abusa de dilemas morais e existenciais.
Dito isso, eu criei uma admiração pelo anime e por muito tempo não me senti assim de novo. Não é a toa que Evangelion é desde os anos 90, o anime de sci-fi mais adorado e bem sucedido de todos os tempos.
Então por anos eu senti falta de histórias que usavam do Fan-service para contextualizar narrativas interessantes e me mergulhar no drama de forma satisfatória e inteligente.
Até que me recomendaram "Darling in FranXX"...
Não dá pra ignorar, não dá pra censurar uma ou outra cena e nada de pular episódio.
Eu senti que Darling in FranXX é um anime inspirado em filmes ocidentais, como Oblivion e Pacific Rim e também em animes famosos como Evangelion e Gurren Lagan, mas com uma pegada até original.

Naturalmente, já calejado pelo apelo superficial do fan-service, logo no primeiro episódio eu quis desistir.
Por sorte eu estava com tempo livre e fui surpreendido e com total satisfação. Me deixei levar pela estória como uma leve correnteza e assim fui carregado com leveza pelos personagens carismáticos. Até perceber que todos os exageros, distrações e cenas constrangedoras eram meticulosamente propositais.
Ao desenrolar da estória, essa narrativa me fez sentir um monstro, um pervertido e me virou ao avesso quando eu desejava por mais e mais cenas focadas no drama entre os personagens e suas descobertas nesse distópico futuro fantasioso.
Assim como Evangelion, é bem carregado de dilemas morais constantemente lembrados na ficção cientifica e sabe usar todos eles com naturalidade, o que deixa ele muito mais fácil de absorver.
É como uma propaganda de cerveja dos anos 90, mas estão vendendo clonagem e viagens interstelares no lugar.
Confesso que depois dos 24 episódios de "teenage drama" eu fiquei mais emocionado do que gostaria. E depois de pensar bastante sobre o assunto, continuo desprezando o termo 'Fan-service' e dos animes que fazem disso uma venda rápida para o público masculino japonês.
Mas como sou brasileiro e bem esclarecido da minha própria sexualidade, talvez eu nunca vá entender como funciona a cultura japonesa e suas peculiaridades. Afinal eu hoje não sou mais o fã de animações que era 15 anos atrás e definitivamente não quero voltar a ser.
Afinal, todos podemos consumir um pouco dessa cultura sem ficar cegos pelas cores vibrantes e manobras radicais dessa cultura misteriosa.




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