Cheiro de gasolina e um pé esquerdo sujo
- César Froes

- 21 de fev. de 2019
- 3 min de leitura
Atualizado: 21 de fev. de 2019
Aconteceu a algumas semanas, eu estava conversando com um amigo sobre como sentia falta de andar na minha moto.
E no meio das conversas que envolvem válvulas, cilindros e torque nós falamos também sobre algumas experiencias nas estradas e ele soltou a seguinte frase:
Como eu não morri ainda?
Talvez foi sorte ou habilidade, ou a combinação dos dois. Mas sei que eu mesmo, já cheguei bem perto muitas vezes.
Parece uma conversa muito absurda de se entender, quando não se anda de moto.
Mas entre nós, entre duas rodas, é bem comum! E pra tentar entender isso foi preciso ir na origem, buscar na raiz da paixão pra descobrir como que fizemos de rotina, essa loucura de conviver com o perigo.
Eu sei muito bem que não sou o tipo de motoqueiro que gostaria ser. Mas nenhum dos imensos esforços de amigos e minha família foi suficiente pra me impedir de curtir por tempo suficiente minha velha Suzuki nas estradas sinuosas que cortam as serras de Minas Gerais.
Desde pequeno eu escuto que motocicletas são perigosas, histórias de parentes e conhecidos que machucaram ou morreram.
E como se não fosse o suficiente, toda a mídia nos atola com filmes, séries, novelas, músicas e livros mostrando uma vida radical e absurda onde motoqueiros são selvagens, marginais e suas maquinas assassinas são a foice da própria morte, transformada pelas ambiciosas mãos humanas para serem mais atraentes e barulhentas.
Parece um pouco de exagero da minha parte, mas busque na sua própria memória. Você provavelmente viu no mínimo um ou dois motoqueiros que carregam orgulhosamente essas palavras como títulos em motoclubes.

Enquanto morar com a gente, precisa esquecer esse papo de moto. Se aparecer uma nessa casa, você sai!
Não sei dizer onde vi essa sentença primeiro. Se foi em alguma conversa que vi entre adultos, numa novela ou algum filme da seção da tarde. E ela exemplifica bem essa visão de que o motociclismo é profano e cruel.
Você pode tentar convencer uma boa parcela de pessoas do quão é perigoso, mas algumas pessoas são eternas crianças.
E é justamente com crianças que quanto mais se diz que é proibido... mais o interesse aumenta!
Enquanto isso existia outra parte do mundo, a indústria de desenhos animados, brinquedos e vídeo-games usaram essas histórias pra lucrar em cima de geração após geração de crianças.
Foram inúmeras influencias, todas elas carregadas de perigos, aventuras e histórias fantásticas.
Kamen Rider, Esquadrão Marte, Full Throttle, Road Rash, Akira são os nomes mais fortes e não fogem em momento nenhum desse conceito.
Se a criança, depois de todos esses alertas, ainda pretende se aventurar ela ainda corre o risco de se sentir numa posição especial, por ter vivido essas memórias fantásticas. Porém nenhuma dessas histórias consegue traduzir a sensação de verdade.
Depois disso a coisa fica profunda, e possivelmente permanente.
Não sou a pessoa adequada pra alertar e aconselhar sobre os perigos reais, dentre a imensidão de fantasia.
Longe disso, talvez eu seja pior que as companhias que me moldaram. Afinal, aqui estou tentando convencer mais um a aderir a liberdade e adrenalina fornecida pelos grandes fabricantes de motocicletas dessa década.
Eu não pretendo ser mais realista sobre o assunto.

Vou continuar fantasiando, até eu voltar a andar. Encarar as estradas depois de me arrumar escutando minha playlist de "músicas para pilotar" e desenhar várias caveirinhas em algum caderno de estudos. E quem sabe até desenhar o Kamen Rider metendo o pé na cara de algum vilão de outra dimensão.
E se não ficou claro, todo esse universo que envolve motociclismo é bem mais do que um passatempo pra mim.
É um filtro mágico que uso pra transformar os tons cinzas sem graça do mundano em ilustrações super saturadas e cheias de fumaça e neon.
E talvez esse texto possa ajudar a você enxergar por esse mesmo filtro, sem arriscar a ralar até a alma numa curva fechada da BR262.



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